terça-feira, 29 de novembro de 2011

Outono no Leste Europeu: Berlim - parte III

E eis que finalmente consigo terminar essa trilogia do Leste Europeu, encerrando em Berlim.  E, pra isso, nada melhor que uma foto típica de outono de um dos váriosss parques lindos que têm lá...


Um parque em Berlim em pleno outono (Alemanha)

O único porém desses dias em Berlim foi que pegamos chuva, frio e um tempo bem chatinho... Sem dúvida, a primavera é a melhor estação pra conhecer esse lado da Europa. Apesar disso, deu pra circular bem na cidade.

Nossa primeira meta foi conhecer o Muro de Berlim, claro! Ele é gigante e cheio de pinturas, as mais variadas possíveis, de diversos artistas do mundo todo. Em inglês é conhecido como East Side Gallery.

Uma das poucas obras de brasileiros/as no Muro de Berlim (Alemanha)

Euzinha da Silva, na exata divisão entre Berlim Oriental e Ocidental (Alemanha)

Pintura clássica que se encontra lá no Muro de Berlim (Alemanha)

Também visitamos o Memorial do Holocausto que é um verdadeiro labirinto de concreto. São quase 3 mil blocos de concreto feito em homenagem às pessoas judias vítimas. São todos diferentes entre si.

Memorial do Holocausto em Berlim (Alemanha)

Pra fechar Berlim, super recomendo uma visita ao edifício Tacheles. Infelizmente, não tenho comigo nenhuma foto bacana de lá, mas vale muito a pena conhecer o lugar. Não só porque há rumores de que ele será demolido, mas porque lá se encontra toda a arte outsider alemã. Em cada sala, vão, cômodo do prédio, tem um artista que apresenta seu trabalho, saindo completamente do padrão. É muito bacana! Tão bacana quanto é o Café Zapata que fica ali junto e rola som de altíssima qualidade. Mas o bar é pequeno e bem disputado. Tivemos sorte de passar por ali no final da tarde e pegarmos o ensaio da banda que ia tocar mais tarde. Arrasaram!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Outono no Leste Europeu: Budapeste - parte II

Chegamos em Budapeste! A capital da Hungria é atravessada pelo famoso rio Danúbio. Por conta disso, do lado direito do rio a região é conhecida como Buda e do lado esquerdo Peste. Bem sugestivo, não?!

Está é a mais conhecida das várias pontes de Budapeste: Széchenyi. Também nominada como ponte das correntes, bem mais fácil... Mas, pra mim, claro, ainda mais sendo leonina, deveria chamar Ponte dos Leões! (Budapeste, Hungria)


Já que tínhamos gostado da proposta do free walking tour que fizemos em Praga, procuramos o grupo na Hungria. Para nossa surpresa, havia a proposta de fazer uma caminhada "comunista" pra conhecer um pouco dos lugares, da história e de como o comunismo está profundamente ligado ao país como um todo. Nesse sentido, nossa guia nos levou a um lugar onde ainda havia uma espécie de abrigo (shelter ou bunker) e, ao mesmo tempo, um ponto de fuga para onde a elite do governo seria levada, chegando rapidamente ao aeroporto e podendo sair do país.


Grupo do walking tour olhando o abrigo/ponto de fuga (Budapeste, Hungria)

Vista do interior do abrigo/ponto de fuga (Budapeste, Hungria)

À noite, depois da caminhada, a guia propôs que fôssemos a um bar onde ela mostraria objetos pessoais da sua família e conhecidos. Vimos postais, jogos, passaportes, documentos onde cada pessoa ganhava pontos vermelhos ou azuis pelo apoio ao regime ou não... Enfim, coisas que não se vê tão facilmente assim... Apenas fiquei com mais vontade de visitar as ruínas da gigantesca estátua de Stalin que estão nos arredores da capital. Após cair o regime comunista, sobrou somente o pé dele... E ainda assim, parece algo assombroso de tão grande. Mas infelizmente não rolou... Bom, pra dar conta de tanta coisa, o consolo foi que já estávamos num bar porque uma cerveja era providencial nesse momento! Foi quando li algo que não era em húngaro (please!) e morri de rir:

Um quadro bastante sincero num bar (Budapeste, Hungria)


Uma húngara vendendo flores e frutas próximo à ponte que separa Buda e Peste (Hungria)


Pra fechar essa passagem pelo Leste Europeu, em pleno outono, nada melhor que uma foto que tirei dos meus dois amigos, companheiros nessa viagem, quando contemplavam a linda vista do rio Danúbio.

Jú e Lud em momento contemplativo (Budapeste, Hungria)

domingo, 30 de outubro de 2011

Outono no Leste Europeu: Praga - parte I

Finalmente consigo retomar meus posts de viagens literalmente falando! E reinicio agora com uma viagem que fiz pro Leste Europeu antes das minhas aulas do mestrado começarem na Europa. Começo por Praga, na República Tcheca, onde estive mochilando em 1997 e voltei em 2010. Pra se ter ideia das diferenças entre os dois momentos que visitei o país, na década de 1990, tivemos que conseguir visto pra entrar já que a Tchecoslováquia havia saído recentemente de um regime autoritário e estava iniciando sua abertura política. O país tinha praticamente acabado de virar República Tcheca. Ir pra lá naquela época era ultra-exótico. Helô S., você não iria reconhecer quase nada se fosse hoje, parece outro país!



Chegamos lá no outono de 2010, era noite e já fazia muito frioo... A primeira abordagem realmente tcheca ocorreu logo na saída da estação de trem, onde um rapaz insistentemente perguntava ao meu amigo se ele queria "chocolate" ou a conhecida marijuana. Estranhamos isso porque em nenhum outro lugar na Europa tinha rolado esse tipo de "aproach". Bom, seguimos pro nosso hostal. No caminho, percebemos que o bairro era dominado por muitas casas noturnas de show de sexo, massagem e sex-shops. A essa altura, pensei: "Só falta o rock'n roll agora!". Mas isso não apareceu... Praga não pareceu muito receptiva nessas primeiras horas. 


Finalmente depois de muitas olhadas no mapa e nas ruas, conseguimos chegar no hostal e surprise! Não havia ninguém! A noite ia ser bem mais longa do que imaginávamos... Nessas horas, tudo parece bem mais difícil: se comunicar em outra língua (falamos inglês, mas eles, os tchecos, nem sempre...), fazer um telefonema internacional... Ligamos e nada de alguém atender. Acionamos o plano B: procurar outro lugar pra dormir pelo menos a primeira noite. Próximo dali, tinha apenas um outro hostal nas redondezas e que era infinitamente mais caro! Pelo menos, o funcionário foi super bacana com a gente, inclusive, ligando do telefone dele pro número de onde tínhamos feito reserva. Ele então conseguiu contato e a figura responsável disse que estava chegando. Salve, salve! Nossa cama estava garantida! 


Nosso guia espanhol em frente à estatua do Kafka (Praga, República Tcheca).

No dia seguinte, pra compensar o frio do Leste Europeu, fez um sol espetacular daqueles em que o céu não tem nenhuma nuvem. Decidimos entrar no esquema do "free walking tour" (http://www.neweuropetours.eu). Eu não conhecia a proposta e achei muita boa! Pena que fazer isso no Brasil parece inviável... Bom, você escolhe em que língua quer seu guia (a maioria é em inglês, mas também quase sempre tem em espanhol) e no local e hora marcados você se junta ao grupo. A ideia é caminhar pela cidade à pé, onde o guia apresentará os principais pontos da cidade, assim como a história do lugar. O passeio é tranquilo, tem várias paradas e você nem nota o tempo passar. Ao final, você dá aquilo que acha justo, inclusive podendo não pagar nada, se não tiver gostado da caminhada. Como eles dizem: We work for tips!


O famoso relógio medieval astronômico (e astrológico!) Orj (Praga, República Tcheca)

Em cima do relógio, tem duas janelinhas onde, em determinadas horas do dia, passam os 12 apóstolos. Então, se você notar uma certa aglomeração de pessoas, tenha certeza que logo logo os bonecos irão sair pra fazer seu showzinho. Entenda que, nos dias atuais, Praga está praticamente tomada por turistas. Confesso que pra mim foi atordoador estar sempre no meio de centenas de pessoas passeando... Jamais imaginei que aquela Praga que eu visitei em 1997 não existisse mais. O que obviamente não tira a beleza do lugar. Mas procure fugir do período de férias européias e, principalmente, o verão (meses de julho e agosto). A capital da República Tcheca acabou se tornando um grande ponto  turístico na Europa, principalmente, por seus preços acessíveis e por ter sido um dos primeiros países do Leste Europeu a se abrir politicamente. Falando em política...

  Quadro que estava dentro de um bar (Praga, República Tcheca)

Tirei a foto acima por intuição e curiosidade. Deduzi que "politische" era política em português e fiquei curiosa pra saber o que significava a tal frase. A primeira está em alemão e a segunda em tcheco. Depois, uma amiga traduziu dizendo que "falar sobre política é proibido". Surreal isso, não?

Pra fechar, algumas coisas imperdíveis em Praga: experimentar o absinto original (tem que ser aquele que servem em bares, com 1 colher de açúcar que se queima na hora), visitar o Castelo de Praga e a (gigantesca) Catedral de São Vito que demorou mais de 2 séculos (!) pra ser concluída. E o que mais te interessar! 

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Entrevista com Maria Rita Khel na Cult


Postando uma entrevista de outra ídola minha... Tirei esse material do blog da Boitempo.


Escuta aqui: entrevista de Maria Rita Kehl à Revista Cult


Entrevista publicada na Revista Cult nº 162 (outubro de 2011)
Maria Rita Kehl foi jornalista antes de se tornar psicanalista. Juntando essas disciplinas, desenvolveu uma forma de crônica em que analisa o noticiário identificando sintomas da psique brasileira. O estilo carregado de coloquialidade e referências pop facilitou a comunicação com os leitores dos jornais, revistas e sites para os quais tem escrito. 
No ano passado, ela exerceu essa atividade regularmente em O Estado de S. Paulo, origem da maior parte dos textos reunidos em 18 crônicas e mais algumas (Boitempo). 
A autora lança, portanto, uma obra de apelo mais geral do que O tempo e o cão (Boitempo), tríade de ensaios sobre a depressão que lhe rendeu o Prêmio Jabuti na categoria não ficção. 
Kehl teve sua coluna interrompida em outubro passado, logo após publicar uma crônica sobre o voto da classe média. “Dois pesos…”, na qual critica mensagens que corriam pela internet desqualificando o voto dos beneficiários de programas sociais como o Bolsa Família, tornou-se popular nas redes sociais e marcou o debate eleitoral. 
Essa e outras crônicas que buscam expor os recalques da sociedade brasileira estão na coletânea, que deve chegar às livrarias no final do mês. 
CULT – Ao descrever o filme Cronicamente inviável, a senhora fala da “indignação moral meio infantil” que acometeu o diretor Sérgio Bianchi, que depois amadureceria. O que impede a classe média de amadurecer politicamente? 
Maria Rita Kehl - Não sei se posso responder com justeza a essa pergunta. A primeira resposta que me ocorre é: o conforto relativo que se pode comprar (ou que se espera poder comprar) para suprir as carências do Estado no plano da vida privada não impede, mas poupa boa parte da classe média de amadurecer sua perspectiva de cidadania, que remete necessariamente à vida pública. 
Quem acede à classe média planeja imediatamente conseguir pagar pela educação dos filhos, pela saúde, pela segurança na rua em que mora etc., e com isso, ufa!, deixar a política pra lá. 
No Brasil, todos conhecem e denunciam a corrupção, a injustiça social, o desleixo dos políticos, mas numa perspectiva fatalista, do “este país não tem jeito jeito mesmo…”, e não numa via de engajamento em protestos transformadores. 
Que recalques da cultura brasileira a senhora diria que melhor evidenciou nos textos deste livro?
O mais importante, o mais onipresente, é o recalque da brutal violência da desigualdade social brasileira. É imprescindível que os intelectuais que se consideram de esquerda tentem se colocar, ao escrever sobre as mazelas brasileiras, no ponto de vista do outro. 
Às vezes escuto dizerem que os pobres no Brasil não sabem falar sobre sua perspectiva de classe. Sabem, sim, e com muita propriedade. É só escutá-los. O que eles não têm é acesso aos meios de divulgação de sua palavra – o que já revela, de saída, a brutalidade da exclusão a que me refiro. 
Sem perder o rigor da linguagem psicanalítica e a referência a dados jornalísticos, a senhora usa bastante a linguagem coloquial. De onde vêm a gíria e o ditado popular em sua escrita? 
Sem demagogia, acho que antes de mais nada o uso da linguagem coloquial, para qualquer escritor, vem da vida, da circulação pelo mundo. 
Creio que a conquista da linguagem acadêmica, ou daquela que chamamos de “elevada” – e que tem grandes méritos, como se deve reconhecer –, exige o recalque de parte dessa memória que é auditiva, infantil ou adolescente, assim como de todas as expressões que circulam nas letras de música popular, nas gírias, naquilo que os poetas dos anos 1960/70 chamavam de “a fala das ruas”. 
Mas é bom lembrar que a sensibilidade para escutar as expressões populares também vem da clínica. Freud, o criador da psicanálise, não excluiu de seus conceitos teóricos a origem popular das expressões que escutou da boca de seus pacientes. 
Embora diga que prefere adiar suas “veleidades literárias” para a velhice, a senhora testa os limites formais da crônica em textos como “Sua única vida”, que evoca a morte de um jovem em uma chacina em São Paulo: “Pensou em guaraná maconha Maria Inês calcinha…”. Sente que a hora da literatura está chegando em sua vida? 
Gostaria que fosse assim, mas não posso afirmá-lo. Esse texto foi realmente escrito sob forte emoção, eu me coloquei no lugar do menino baleado e pensei: como é você perceber que está morrendo e não poder nem pedir socorro? O que será que passa na cabeça de quem percebe que a vida chega ao fim aos 15, 16 anos? 
Quanto à literatura, falta-me a imaginação do ficcionista. E falta-me, principalmente, tempo. A escrita literária exige um tempo de incubação, um tempo vazio, que no momento não tenho. Espero ter, um dia. Antes tarde do que tarde demais. 
O artigo “Dois pesos…”, que culminou em sua saída da coluna quinzenal em O Estado de S. Paulo, ganhou destaque na edição desta coletânea. Fazendo uma paráfrase, o livro é uma espécie de cura para o impacto traumático do acontecimento? 
Para mim, sim. Acho que nenhum artigo meu foi tão lido como aquele, depois que o cancelamento da minha coluna vazou para o Twitter e foi o item mais divulgado nacional e internacionalmente nas 24 horas seguintes. 
Soube de gente que mudou o voto por causa de “Dois pesos…”, principalmente entre jovens que estavam indecisos. 
Claro que aquele excesso de visibilidade me fez esquecer momentaneamente a perda do espaço do Estadão, mas isso não significa que não tenha perdido algo que tinha muito valor para mim: não só o espaço para me manifestar quinzenalmente de forma mais ou menos livre (nem tanto, no fim das contas), mas também o desafio de escolher os temas – ou ser escolhida por eles –, apurar o estilo para caber no espaço limitado etc. 
Agora, o lançamento deste livrinho com as crônicas também vai me ajudar a reparar a perda.